9 de jun de 2011

Sem Fôlego

Ok. Agora vou correr o mais rápido que eu posso.
Eu fugiria também se tivesse sido ruim. Mas não foi.
Vou sem deixar meu telefone no espelho do banheiro.
Porque se você não me ligasse amanhã eu poderia achar que foi uma bosta.
E se você ligasse eu teria a certeza de que deu merda.
Posso conviver com a dúvida, mas ainda não agüento uma nova perda.
Por isso abro mão da possibilidade assim que a vejo no horizonte.
Abandono meus instintos, sufoco desejos e sigo correndo de mim mesma.
Porque não sei lidar com o amor. E porque me contaram que ele acontece exatamente assim, num descuido, numa esquina, numa cama de amigo.

3 de jun de 2011

Dói não

          A maior ladeira do bairro era a da Rua Trabulsi. Maior ainda quando você tem 12 anos e está agarrada na garupa do Ricardinho, numa mobilete Caloi velha.
Nem se falava em capacete nos anos 80. A gente dançava punk rock com tênis de skatista feito menino, bebia keep cooler e assava batatas na ruinha que tinha em frente ao prédio. Nem por isso viramos um bando de bêbados e maloqueiros. Hoje quase todo mundo tem um emprego normal, vidinha besta e financeiramente estável, sonho de todo pai. Menos o Ricardinho.
Enquanto todos os meninos da nossa idade eram mais baixos e extremamente magros, ele era mais gordinho e mais charmoso por conta de uns olhos verdes enormes e uma melancolia já quase adulta. Usava aparelho nos dentes, estudava no mesmo colégio de padres que eu e diziam que seu pai era dono do maior motel de São Paulo. Não era bom aluno, mas era descolado. O avesso de mim, filha de bancário e dona de casa, que usava óculos e vivia de blusão amarrado na cintura.
Tinha muita menina bonita na nossa turma. Mas de vez em quando era eu que ele chamava pra descer a Trabulsi. Caxias que sou, me borrava de medo mas não perdia uma oportunidade. A gente ia conversando no caminho, a 10 por hora e eu tentava me controlar pra que minha voz não denunciasse a tremedeira.
Lá no topo ele me olhava bem de perto e perguntava se tava tudo bem, rindo e pedindo pra eu segurar firme. E eu aproveitava pra segurar mesmo. Um dia até cravei as unhas na cintura dele sem querer. – Dói não, ele disse sorrindo.
Não sei o quanto durava a descida, mas tenho cada segundo desses colados em mim, mesmo 20 anos depois. O vento batia na cara e, junto com a adrenalina, trazia o cheiro de perfume de homem, carregado de hormônios adolescentes, desses poderosíssimos. Às vezes descíamos 2 ou 3 vezes seguidas a ladeira e voltávamos felizes e suados, com o coração à toda.
Num dia dos namorados ele tocou a campainha do meu apartamento com uma flor nas mãos, dessas compradas, não arrancadas. Me deu uma idiotice tão grande que agradeci e taquei a porta na cara dele. Ele só podia estar de brincadeira comigo.
E foi assim, desatenta, que aprendi que a vida escorre da gente e despenca ladeira abaixo.
No final de semana seguinte, Ricardinho sofreu um acidente de carro fatal voltando da balada com uns amigos do irmão mais velho, provavelmente bêbados. Não agüentei ir ao enterro, tirei a minha primeira nota vermelha no boletim e tive que vender a mobilete.
Ainda hoje me pergunto onde dói essa saudade daquilo que a gente não deixou acontecer.