10 de out de 2013

Uma. Outra. Realidade.


Uma tinha insônia criativa misturada à frustração de ter perdido sua feira internacional. Outra acordava com o braço dormente e não conseguiu segurar a chapinha com a qual ajeitava o cabelo antes do trabalho. Sem crédito, outra manda mensagem para uma ligar de volta urgente, isso às 5:32 da manhã.

Toca buscar a outra no hospitaleco de Itupeva, onde os sintomas de um AVC são tratados com um hemograma básico e um tchau do plantonista, que atendia enquanto comia e nem crachá usava. Chegaram ao SUS de Jundiaí onde a amiga de uma conhece a mulher do cardiologista de lá, fato corriqueiro no interior.

Já na internação veio a pergunta estranha: Acidente de trabalho? Só se ela tivesse faxinando minha casa às 4 da manhã, sorriu uma com escárnio. A enfermeira não gostou e mandou que as duas esperassem. Acamparam então nas poltronas azuis e gastas por horas intermináveis, reparando no estado da saúde pública do país.

Enquanto a outra ignorava as consequências e possíveis sequelas de um AVC, uma se amaldiçoava por esquecer o livro do famoso autor norueguês no carro. Foram logo distraídas pelo lamento de um pai negro de olhos de um azul-claríssimo, procurando seu filho entre os desconhecidos internados ontem.

A primeira meia hora foi mais difícil para uma. Vendo a angústia dos rostos que desfilavam pela sala de espera, desejou morrer antes de definhar ou enrrugar daquele jeito. Doentes com Parkinson, catarata, artrose, sobrepeso e desalento encaravam curiosos sua camiseta verde limão com proteção contra raios UV.

Depois de cada exame, diagnóstico, novo exame e novos médicos, voltavam para a sala de espera, cheia de olhinhos vidrados na TV que só mostrava reportagens de comida. Receitas de alcachofra, dicas para ser saudável e os problemas da classe média obesa comentados por quem estava em jejum desde muito cedo.

Demora? Costuma demorar bastante, devolveu com um sorriso de escárnio a atendente do início. Uma olhava fixo para as diversas bengalas dos velhinhos, encolhendo a mais firme e pontuda, lembrando a cena clássica do filme “Um dia de fúria”. Mas logo desistia da ideia e suspirava resignada, como todos ali.

A última meia hora foi mais difícil para outra. Mais complicado que perder o lugar na fila da tomografia para aqueles que entravam de maca, com a camisola ridícula e a sonda cheia de xixi, foi ouvir a notícia de que teria que dormir lá nas próximas noites, sob observação. Sim, e apenas com a camisolinha ridícula.

Uma foi embora depois de 12 horas de plantão como acompanhante, compadecida de um pedreiro com quem trocou empanadas na fila da segunda tomo. Outra dormiu agradecida por estar entre mais leitos, paciente com os roncos e gemidos, porque tinha medo de dormir num quarto de hospital sozinha.

Só uma passou a noite em claro, encarando as horas, a realidade e o mundo todo parado enquanto seu braço direito se recuperava.