22 de jul de 2011

Mareada

Ela está na chuva aprendendo a surfar.
E a fingir que os trovões são só os anjos arrastando móveis no céu.
A escrever com a chuva molhando a tela do Iphone. 
A chuva que vem sempre invejando suas lágrimas. 
Disfarçando tudo e limpando a merda.
Trazendo a fé que a mantém dançando nua à beira do abismo.
Saciando sua sede com estrelas enquanto ela não alcança o novo.
Riscando fósforos vagabundos desses de hotel mesmo molhados.
Sentindo a poça alcançar suas meias.
E mesmo assim treinando a imobilidade.

O último cigarro a gente fuma além da letra.
E espera mil telefonemas, sem atender o único que liga. 
Cortando o cordão umbilical aos 30 e poucos anos.
Para ser sabe o quê, mas não o conhecido.
Deixando doer, que sua alma carece de músculos.

Medita pra intuir mensagens que ela nunca alcança. Sem sinal.
A espuma derrama na taça. Ela está sempre morrendo de raiva.
Depois renasce e se perdoa e se ama profunda e completamente.
Não sem uns tappings na cara.
Ninguém se conecta enquanto ela se conecta.
No fundo vai dar certo. Quão fundo ainda?

Enche a casa de pegadas molhadas pra buscar mais álcool.
Queria  torcer pro Corinthians. Mas só gosta dos fogos de artifício.
- Vá almoçar com seus pais em vez de ficar comendo essas castanhas velhas. Mas pra que mais piedade?  Parou de chover forte.

Mamonas da matinha do quintal da sua casa balançam molhadas.
E o vento traz a música brega da chácara que dá festas aos domingos.
Tem gente se divertindo e gente parindo e gente almoçando feliz e gente vestida com a camisa do seu time soltando fogos.
E gente estranha bebendo, fumando, comendo castanhas e se perguntando sobre a vida.

Alguém disse que Deus não gosta de planos.
Ainda bem que ela não tem nenhum.
Mas cadê a criatividade desse roteiro?
Devia estar com os amigos em São Paulo.
Mas eles estão dando pras pessoas que os amam. Ou não amam.
Alguém bem que podia ligar agora. Mas aposta 100 como Deus não deixa isso acontecer só porque ela pensou sobre isso.  E aposta que se apostasse mesmo, ele a fazia perder. Deus é assim mesmo e acabou.

Acabou a bebida, a esperança, o domingo, a castanha e a chuva.
Só ficaram as meias e a alma encharcadas.