23 de mai de 2017

Quero inteiro, não pela metade



Você não é minha prioridade, nem eu a sua.
Começamos mal, mas deixamos as circunstâncias nos levar.
Não sei nada de tecnologia e você não sabia quem era Woody Allen.
Mas tentávamos nos encontrar em assuntos comuns, viagens, esporte, família.
Tentei me afastar, te achei desinteressado, você se disse apenas avoado.
Deu saudade e voltamos, o tempo foi passando leve, tinha a paixão pra segurar.
Se dava 80% certo, bora empurrar os outros 20 pra debaixo do tapete.
Fingir que não aconteceu a briga, para acordar de boa no dia seguinte.
Eu disse que não ia cuidar de você, mas é da minha natureza.
Você mostrou que estava se esforçando porque não era da sua natureza.
Foi um 2016 bacana. Para dias de folga, namorado, eu brincava.
Nos dias mais puxados não estávamos juntos pra não desgastar.
Pavios curtos. Gênios fortes. Namoro meio adolescente.
Era frágil e eu sabia, mas você achava que eu tava sendo pessimista.
Se me conhecesse bem, saberia o quanto sou otimista.
I love you, but not all the time. E parecia suficiente pra nós dois.
Mas você precisou de uma brecha pequena pra voar.
E eu precisei saber disso de um jeito Almodovar, como sempre.
Avoado ou desinteressado, acabou ali. Pra mim, um final analógico como você.
Diálogos intermináveis e nunca ditos, na minha cabeça de humanas.
Textos que você não entende, mesmo lendo devagar. Ok seu como resposta.
Tô velha pra grandes ilusões, mas a surpresa foi sair machucada.
Devia ter desconfiado de que meio amor nunca é suficiente.

18 de mar de 2017

Meu Aleph

(esse conto foi um exercício do Lab Contos para o Próximo Milênio do Ronaldo Bressane que fiz em 2014)




Home
Deitada, enfim, no travesseiro dele, colocado sempre aos pés da cama, subi meus olhos para além da cabeceira e vi o inominável. Bem no centro da parede branca estava pendurada uma espalhafatosa mandala furta-cor, dessas que vendem em feiras hippies e brilham no escuro. Talvez girasse, fazendo aparecer dentro dela outras esferas infinitas, imitando os impossíveis desenhos de Escher.
Podia ver cada e todas as coisas de cada e todos os ângulos do Universo. Tiete que sou, vi primeiro a engrenagem do amor e a transformação da morte, como Borges, vi uma coroa furada dinamarquesa no bolso de um ladrão romeno e, de dentro do furo, vi o ladrão dinamarquês fugindo com um leu romeno, vi o pôr-do-sol no Japão de cabeça para baixo, no momento em que fazia yoga em Juqueí, vi a orelha de Van Gogh, Bradbury em Marte, um bilhete de mega sena não reclamado e um paulistano no exato momento em que morria de calor, vi a Biblioteca de Babel e li todos os seus livros, vi desenhos do Pica-pau de trás pra frente falando a língua do diabo, vi os moradores do Alto de Pinheiros lavando as calçadas em dia de falta d’água, vi simultaneamente todas as fotos dos caras com tatuagem do Corínthians no Tinder (e chorei), vi intermináveis insultos políticos no Facebook, vi todas as calcinhas penduradas nas torneiras de todos os banheiros do mundo, vi minha alma-gêmea ser atropelada por um trem, vi Murphy concebendo a Terra, e na Terra outra vez o Aleph e no Aleph a Terra, vi minhas sardas e minhas vísceras, vi teu rosto, e senti vertigem e chorei (parte II), porque sabia que no fundo, no fundo, estava passando o efeito do doce.
– Viu tudo bem, em cores?
(imagem tirada do site FILE 2015)

22 de fev de 2017

Último texto pro site Confeitaria.mag

Não à toa é um texto sobre tempo e viagem, que tiro de lá antes do site sair do ar.
Mas não há tristeza porque agora a Fabi embarcou outro projeto lindo chamado Deriva, que já nasceu cheio de gente talentosa. Quem sabe um dia um texto meu também não apareça por aquelas águas ;)))
Vida longa ao Deriva! www.derivaderiva.com

FÉRIAS NÃO É LUGAR DE DORMIR


O telefone do resort toca. Hora de levantar para o passeio de barco com o marinheiro-dono-da-agência-de-viagens. Passariam o dia no mar, visitando ilhotas ao redor de Split, que pudessem servir de locação para os personagens do seu novo livro. Encontraria Komiza, um vilarejo da ilha de Vis, com menos de dois mil habitantes e casas construídas sobre as águas como a vizinha Veneza, espremida entre uma cadeia de montanhas e um charme inegável. “Que outra cidade uma fotógrafa escolheria?”. Abriu as cortinas para que a vista do mar terminasse de acordá-la. O sol ainda brilhava tímido e, talvez por isso, saiu para o dia sem protetor.

Lessa, o gato que veio junto com o apartamento alugado em Genebra, miava longo e arranhava a porta do quarto. “Já não me basta um menino, agora esse gato”, pensou alto ao notar o chão do corredor e da cozinha brancos, coberto das pedrinhas destinadas ao toalete do bichano, que Lessa fez questão de espalhar enquanto destruía/brincava com o saco preto em que elas estavam, devidamente guardadas num armário sem chave. Varreu tudo para um canto antes de fazer ovos mexidos. Estava ali investigando como seu personagem viveria num apartamento central de Genebra. Sairia com informações preciosas e uma alergia que espalhou bolhas por seu rosto, colo e braços e demorou muitas doses de corticóide para passar.

Manhã e noite em Copenhagen não tinham diferença para eles. Dormiam antes da meia-noite e estava claro como estaria no despertar do dia seguinte. “Parece que tiramos uma soneca”, me dizia ele, sempre com sono e duvidando do que as horas mostravam. Nenhum sinal do frio típico, era um desses verões implacáveis, 28 graus, sem vento. Como se arrastássemos o sol conosco, a cada cidade que incluíamos na viagem. Provamos o pão de centeio com geléia de laranja e uma barra de chocolate amargo fininha, ou com patê de peixe e um molho que mistura mostarda, maionese, picles e anchovas chamado rémoulade. Saímos dizendo “tak”, como a criança brasileira-dinamarquesa que conhecemos, agradecidos pela calorosa hospedagem.

Acordar em Paraty é sempre difícil. Não há como descansar de dia, graças à intensa programação da Flip, as tendas, os bate-papos paralelos, os cafés gratuitos do IMS, os livros novos para carregar nas ruinhas irregulares. Não dá para dormir cedo por causa das festas, dos bares, dos encontros, palestras, coquetéis, caipirinhas e da maravilhosa comida do Thai e do Banana da Terra. O despertar é sofrido, mesmo estando hospedadas numa pousada em que o Sílvio de Abreu e o Nelson Motta tomam café do seu lado. “E que pão de queijo é esse?”, digo levantando novamente para encher meu pratinho. É garantia de voltar ano a ano e fantasiarmos nós daqui a 30, com 67 anos, tão elegantes e cultas quanto as velhinhas na fila de entrada da tenda principal.


* Imagem: ilustração de Anne Laval

20 de set de 2016

Pulando amarelinha no Burning Man




Faço 40 no mesmo ano em que o festival faz 30.
Festival não, evento, como prefere dizer o seu fundador Larry Harvey. Ou “o maior playground adulto do mundo”, li no El País. “Algo que desafia você a sobreviver e se divertir, e ainda cria uma comunidade”.
E na tentativa de nomear o que aconteceu de mais significativo comigo lá, prefiro a aleatoriedade dos fatos, como num sonho, onde as cenas vem e vão, se repetem e me escapam. Sugiro que a leitura também não respeite uma ordem linear. Mas faça da forma em que você se sentir melhor, afinal, aprendi que existe uma distância enorme entre a ideia de que, sendo livre, você vai correr pelado no deserto e sua efetiva realização.

Equilibrando pratos
Esqueça a dica de levar uma câmera boa que quase todos os seus amigos recomendaram. Concentre-se em administrar o carro (caso ele seja sua cama por 7 dias) livre da poeira, lembrar de carregar sua água, gogles, lenço, protetor solar, fitinhas do Bonfim que você levou de gift e ainda pedalar sem cair da bike de 79 dólares aro 26 do Walmart, que parecia ser uma boa ideia quando você comprou online. Não tiro fotos tão bem assim para arriscar. Seu celular com o app do mapa do Black Rock Desert será mais útil caso você precise de um banheiro químico no meio de uma das dezenas de mini tempestades de areia que acontecem diariamente na Playa. Troquei minha câmera profissional pelo galão de vinagre que ganhamos de presente logo na entrada e funcionou milagrosamente para tirar a poeira fina das cutículas e cabelos. Um inglês razoável, inteligência espacial e iluminação de led também serão importantes para compensar o assoalho pélvico que termina o primeiro dia já em caquinhos.

Sabe aquela história de atenção plena?
Condições extremas servem principalmente para duas coisas: se irritar por sentir que nada está sob controle e se entregar. Sorte nossa foi que esse processo aconteceu rápido. Na verdade, planejamento e sorte, fifty-fifty sempre. Duas mulheres estrangeiras, dirigindo por oito horas numa estrada nunca percorrida, abastecendo e comendo o fast food mais saboroso da vida porque estavam famintas, chegando de madrugada e encontrando finalmente o camping fora da localização indicada. Intenso, cansativo e inédito. O primeiro “Bom Dia, Vietnã” a gente nunca esquece. Instantaneidade é a palavra mais adequada. Num evento que propõe zero rastro, ao escovar os dentes você cospe ou engole? Recolher tudo é um jeito de repensar cada lenço umedecido usado, até para limpar os banheiros químicos que você vai usar diariamente. Cada piscada de olho é feita com atenção e foco. Parece um grande esforço, mas quando você nota, não consegue tirar aquele sorrisinho bobo do rosto.

Singularidade, filho.
Em uma semana você terá visto mais pessoas diferentes do que num ano vivido no mundo default. Mesmo com o cabelo rosa e uma mala cheia de combinações improváveis como maiô e bota, me senti uma das mais caretas por lá. Mulheres fazendo acroyoga de calcinha, crianças sentando peladas nos balanços (com poeira fininha entrando em tudo) ou dançando cheias de led e seus earplugs na balada acompanhados dos pais às duas da manhã, casais combinando pijamas-macacões de pikachu, fantasias minimalistas de dia, peles pesadas à noite e muita gente bonita, nova, velha, gorda, super magra e pelada. Havia, inclusive, várias categorias dentro da categoria pelado: pelado pintado de gliter, pelado naturista, pelado sado-masô, pelado de botas. O exercício é saber até onde vai seu desapego. E como é bonito ver pessoas sendo o que elas são, vestindo (ou não) o que querem. No whastapp o mundo real tava gravado: “Que isso, mãe? Que cabelo é esse”? Da próxima vez carrego esse menino para o deserto comigo.

Acredite, você vai sair de lá devendo.
E não é dinheiro, já que tudo lá é de graça. Imagine quanto vale um gole de vinho rosé, um guarda-sol japonês de papel e três sanduíches de queijo, picles e mostarda no meio do deserto, depois de pedalar por horas seguidas? Some na conta uma máscara facial com óleos essenciais, uva mergulhada no gelo, cookies quentinhos, sombra, cerveja gelada e uma leitura espiritual para terminar. Até os mais duros sairiam chorando depois de um dia assim. “Será Magia, Milagre, Miragem. Será mistério”. Teve mojitos (no DeepMentha) e água em garrafas de Energy, Wicked e Love, servidas em shots por mini-burners destemidos. Teve meio boeing 747 em que você pode pilotar até onde sua imaginação quiser. Balançar enquanto tocam violão para você, ouvir num cello “I got so much love, but I don’t know what to do with it, I got so much love, well I guess I’d better share it with the world”. Compartilhar tudo o que você tem no deserto com quem você nunca viu na vida. E sair de lá com muito mais do que levou.

Meditando sob o pó.
O templo, construído onde começa a deep playa, parece estar a alguns degraus abaixo da superfície. Humanos sendo humanos e chorando alto ao lembrar de seus mortos. Muitos objetos para serem queimados junto com aquela estrutura enorme de madeira. Vestidos de noiva, fotos gigantes, mensagens enchendo as paredes com línguas esquisitas, cartas, uma flauta indígena repetindo uma mantra, mais soluços. Outra vez a poeira invadiu os olhos. A impermanência ainda é um conceito tão complicado. Bora pedalar para longe da dor e da saudade. Seguimos o primeiro redemoinho de volta à playa, ao sol escaldante e alcançamos um carro mutante disfarçado de dragão dourado, soltando fogo por onde passava. Nós, nascidas no ano do dragão, celebrando nosso rito de passagem, sentimos o calor das chamas na nuca. Mais adiante, uma moldura com 92 rosas feitas por um artista para sua abuela Rosa Amélia, recém-falecida. Arte e fogo, desde sempre, maneiras de transformar o que não conseguimos lidar.

Você tem fome de quê?
Uma semana de consciência sobre o que comemos, quanta água bebemos, o quanto precisamos de banho ou de um banheiro limpinho, o quanto trazemos de lixo, como sobrevivemos com muito menos e tchan-tchan-rã-ram: o quanto precisamos de conexão com o outro. Ficamos num camping de brasileiros que trabalharam duro e felizes no seu Projeto Mangueira. Também ajudamos um camping vizinho, misto de pista de kart elétrico (com direito a test-drive insano) e num bar-instalação chamado Neurosis (um domo enorme com esferas de energia estática), andamos de patins (de mãos dadas) com black music, recolhemos moop que voava pela areia (matter out of place), pulamos numa cama elástica no meio do nada, tiramos fotos incríveis (principalmnete com o coração), aprendemos contact dance, tomamos vinho no teto de um motorhome (e consertamos a clarabóia que quebrei com silvertape), filei churrasco de uns vizinhos gaúchos, aprendi mais nomes de drogas em inglês do que sei em português, cantamos “Seres vivos da Floresta” pros gringos, ouvimos os DJs mais incríveis do mundo sem saber o nome deles, lemos o BRC Weekly, assistimos acroyoga, compramos (yes!) iced chai geladinho, recebemos amigos (um por vez) para mini-entrevistas-talk-show enquanto almoçavamos no carro (“thousand times” mais limpo que o dos eslovenos), ganhamos um bottom com a areia do deserto, tomamos sopa de cenoura no café da manhã quando acabou a comida (mas sobrou gim tônica), lavamos o cabelo com vinagre na pia do nosso RV e assistimos o homem de madeira, símbolo do evento, queimar junto com 70 mil pessoas celebrando a vida e os valores que compartilhamos durante esse tempo. Havia outras baladas ainda mais incríveis de saideira. Mas terminamos a noite comendo arroz-feijão (com alho e cebola!) e hambúrguer vegano no motorhome de nossos novos amigos. Dia seguinte, chamado êxodo, na rádio do evento tocava uma música eletrônica em português: “Eu me sinto completamente contente”.





2 de ago de 2016

Ah, vó.



Desde ontem me demoro nessa foto de família. Ali no meio estão meus avós, cercados de um tio e a tia caçula de um lado, a tia mais velha e minha mãe de outro. Todos riem, minha avó esconde os dentes. Meu avô é o único fantasma da foto. Minha avó queria ter sido (ido) antes, mas o danado era ariano e passou na frente.

Desde hoje de manhã, ela cansou de brincar sem par e se escondeu do mundo. Se afundou nas memórias, nos rancores, nas vozes de personagens e histórias do passado. Nem reconhece o presente, nem encontra forças para andar pra frente, nem que seja em pensamento, já que fisicamente não o faz sozinha há mais de 10 anos.

Desde pequena carrego um pedaço desse poço fundo que é a minha avó comigo. Sempre preferi meu avô, mais bonzinho e ativo, menos intenso. Luto bastante contra o inverno, a melancolia e a intensidade com que encaro as experiências que a vida me oferece. Chamo meu filho de dramático, mas ele tem a quem puxar.

Desde adolescente escondo minha avó na escrita. Era ela nos diários chorosos, nas redações piegas para agradar professoras, nas tentativas poéticas frustradas, nos contos com crianças, na dupla personalidade da Beta e até na carência dos personagens masculinos do segundo livro. Procure de perto, não sei esconder bem.


Desde que minha mãe me ligou da casa da minha avó, tento pensar em como trazer ela à tona. Ela é pesada e o poço é quentinho, que bem sei. Sugeri cócegas e beliscões, mas ela continua catatônica. Penso se eu, que tanto sei entrar e sair dele, não devia ir até lá procurar a sua mão. Lá onde, cara pálida? Bem podia existir um skype emocional para conectar o meu poço com o dela, por um número que estivesse na cadeia do nosso DNA. Você pisca o olho se receber o meu sinal, vó, e eu prometo dizer só coisas boas? Posso cantar um pouco a música de Maria, que saía da vitrolinha vermelha enquanto você lavava o quintal com a vassoura de piaçava: “Olhe o que foi meu bom José, se apaixonar, pela donzela...” Ou recitar a primeira palavra que você me ouviu dizer e não se cansava de contar: “Batauta”. Te contar que meu filho está fazendo tricô e perdendo os pontos como eu perdia quando tinha 10 anos e passava as férias em Chavantes. Dizer que lembro de você toda vez que como um bis porque cada neto seu ganhava uma caixa e a recomendação de comer com calma para durar bastante. Eu bem tentava, vó, mas o Brê e a Gabi comiam os deles e os meus. Evocar o aroma dos scones que você fritava e escondia para o Natal, ou das galinhas que depenava e passava no fogão, credo. Confessar que roubei as cartas de amor que meu avó mandou para você no noivado e estavam guardadas dentro de uma latinha de biscoitos enferrujada e que são lindas de chorar e respeitosas e feitas de um amor que eu nunca encontrei na vida. E dizer obrigada por esse caldo emocional, pegajoso, brega, chato e criativo que herdei de você. Fica mais um pouco com esse seu sorriso no mundo, vó, porque basta imaginar e você atrai o amor e a força que precisa pra seguir em frente.

30 de nov de 2015

Bolhas anti-terror

Esse texto deveria ser escrito assim que assisti o filme “Homem Irracional” do Woody Allen. Saí do cinema impressionada com um protagonista que só reencontrou um significado para sua vida na possibilidade de assassinar alguém. Nem o relacionamento dele com Emma Stone no filme teve esse poder. Hoje vejo que estava CEGA e a história era sintomática dos tempos de terror em que vivemos.

Não estou falando (só) de Paris. Penso nos pequenos ataques diários dos homens e mulheres bombas que viramos. A discussão deixou de ser saudável faz tempo. Hoje somos extremistas frente (e contra) todos os que pensam e fazem diferente.

Esses dias, fui atravessar a rua (uma esquina) com 3 crianças. Havia faixa de pedestres, não vi carro por perto e dava tempo pelo farol, ainda vermelho. No meio da faixa, um carro quis aproveitar que o farol da rua dele amarelava e virou com tudo, brecando a meio metro de mim e da última criança. Assustamos, mas seguimos. Recebemos gritos me chamando de IRRESPONSÁVEL que ecoaram pela Nazaré Paulista. Como explicar para meus sobrinhos que não estávamos errados. Então por quê aquilo? Por andar a pé numa cidade pra carros?

Semana passada o vizinho da minha casa (geminada) foi assaltado. Ele tem grades na janela, eu não. Naquela noite, minha porta da cozinha dormiu aberta e meu carro com a chave dentro (ok, ok, hoje não mais). Ele quer mudar de país porque odeia o Brasil enquanto eu me recuso a viver com medo. Não contei do assalto para meus pais (agora vão saber) nem para meu filho. E por que moro numa casa pé na rua? Porque com certeza sou LOUCA, INGÊNUA e SORTUDA.

Há quase dez anos sou mãe e prefiro criar o Lô dizendo que o mundo é bom, belo e verdadeiro. Sei que ele pode até não ser (sorry, Steiner, a coisa mudou muito). Mas se meu filho acreditar nisso na infância, quando tiver maturidade vai lutar para mudar o que vir de errado. Preciso enxergar a metade cheia do copo para mostrar a ele. Preciso desligar a TV e editar o que eu quero que ele veja. E acabei criando uma bolha deliciosa, que ainda não furou porque ele não tem acesso às redes sociais e seus ataques diários. Aquelas de gente amiga querendo se matar.

Não sou contra a internet, mas contra o ódio que polariza as pessoas. Mobilização é incrível e faz parte do copo cheio. Assim como exigir justiça, melhorar a igualdade social e de gêneros, cobrar políticos e ocupar escolas. Nas histórias, é quando o super-herói fica puto que ele reage e ganha. Mas isso é bastante diferente de odiar alguém a ponto de querer matar a pessoa. E hoje nem a presidente do país escapa a esse ódio mortal.  Mãe, o que é linchamento?

E você? Já ficou com ódio de mim por esse texto? Normal. Sorte que minha bolha é à prova dele. Também preciso te dizer que conheço mais gente IDIOTA feito eu. Gente que você pode até tentar empurrar pro poço do elevador mas, como no filme, (spoiler!) pode estar mais a salvo do que você.




15 de jun de 2015

Lançamento do Zine da Confeitaria

Foi ontem o lançamento do zine Tempo - Achados e Perdidos, com um arraial bacana, hamburguer vegano e cheio de gente talentosa. Tô muito feliz por fazer parte desse time! Lê lá ;)))

Saiu uma matéria aqui:
http://blog.cantao.com.br/2015/06/o-1o-fanzine-da-confeitaria/

E tem pra comprar na lojinha:
http://loja.confeitariamag.com