30 de out de 2011

Saudade é uma merda


Melhor que não existisse nem a palavra.
Ao inferno com as fotos, aquelas risadinhas cúmplices e esse gosto do melhor bolo de chocolate do mundo.

De repente a rotina expulsa a graça da vida.
De repente a gente empena feito pássaro e tem que sair voando do ninho.
E as cores se perdem, os queridos se vão e a mágica do pirlimpimpim não funciona nunca mais.

A tristeza vai deixando a gente forte pra agüentar cada vez mais tristeza.
Aquele riso alto agora morre de vergonha de acontecer.
A gente vira um chato que não sente mais cócegas.
Ou finge que não com toda a força do mundo.

Posso dizer exatamente quando meu coração começou a enferrujar.
Ela disse que ia morar fora para experimentar o mundo.
Dei de ombros e fiz questão de não ir nem à despedida, nem ao aeroporto.
Macho pra caralho. Comecei a tratar mal todas as mulheres que tive, prevendo que um dia me trocariam pelo novo.
E acontecia tanto que eu nem me importava mais.

E lá se foram 5 anos.
Ontem mamãe ligou eufórica com notícias dela.
Parece que vai mesmo se casar com um cara que conheceu por lá.
Junto com o meu convite, mandou um recado num post it:
- Venha! Vai ter bolo de chocolate.

(Exercício de criação literária proposto por Marcelino Freire num curso seu que fiz no B_arco. Foto de Thiago e Bruna Romaro.)

17 de out de 2011

6 de out de 2011

Gamberra

Ele aceitou pular de paraquedas com ela.
Sem nem questionar se ela dobraria a lona direito.
Porque ela é daquelas que parecem saber de tudo.
E porque já tinham feito coisas mais perigosas juntos,
dessas que envolvem drogas pesadas e sexo sem proteção.

Tentava não pensar tanto nela.
Mas suas músicas começaram a ficar mais doloridas.
Enquanto ela sorria leve e dançava sobre seu corpo.
Ele entregava tudo e se dissolvia num amor minúsculo.
Até acordar sentindo falta de um pedaço cada vez maior de si.

Esperava uma palavra dela para deixar sua esposa e filha.
Mas ela queria o contrário, o gosto da culpa, o perigo.
Intuía que ele não era o único e ignorava as provas.
Talvez ela precisasse da sua devoção. Ou ao menos gostasse.
Difícil era convencer seu orgulho a se contentar com isso.

Preferiu sofrer o luto e dobrou ele mesmo o paraquedas.
Lá em cima, sem ninguém ver, colocou o seu no lugar do dela.
Na hora de saltar, ela resolveu se agarrar ao instrutor.
Porque o demônio sempre sabe de tudo antes da gente.
E continua muito do vivo, se alimentando de corações partidos.