18 de mar de 2017

Meu Aleph

(esse conto foi um exercício do Lab Contos para o Próximo Milênio do Ronaldo Bressane que fiz em 2014)




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Deitada, enfim, no travesseiro dele, colocado sempre aos pés da cama, subi meus olhos para além da cabeceira e vi o inominável. Bem no centro da parede branca estava pendurada uma espalhafatosa mandala furta-cor, dessas que vendem em feiras hippies e brilham no escuro. Talvez girasse, fazendo aparecer dentro dela outras esferas infinitas, imitando os impossíveis desenhos de Escher.
Podia ver cada e todas as coisas de cada e todos os ângulos do Universo. Tiete que sou, vi primeiro a engrenagem do amor e a transformação da morte, como Borges, vi uma coroa furada dinamarquesa no bolso de um ladrão romeno e, de dentro do furo, vi o ladrão dinamarquês fugindo com um leu romeno, vi o pôr-do-sol no Japão de cabeça para baixo, no momento em que fazia yoga em Juqueí, vi a orelha de Van Gogh, Bradbury em Marte, um bilhete de mega sena não reclamado e um paulistano no exato momento em que morria de calor, vi a Biblioteca de Babel e li todos os seus livros, vi desenhos do Pica-pau de trás pra frente falando a língua do diabo, vi os moradores do Alto de Pinheiros lavando as calçadas em dia de falta d’água, vi simultaneamente todas as fotos dos caras com tatuagem do Corínthians no Tinder (e chorei), vi intermináveis insultos políticos no Facebook, vi todas as calcinhas penduradas nas torneiras de todos os banheiros do mundo, vi minha alma-gêmea ser atropelada por um trem, vi Murphy concebendo a Terra, e na Terra outra vez o Aleph e no Aleph a Terra, vi minhas sardas e minhas vísceras, vi teu rosto, e senti vertigem e chorei (parte II), porque sabia que no fundo, no fundo, estava passando o efeito do doce.
– Viu tudo bem, em cores?
(imagem tirada do site FILE 2015)